Ele e ela não se conhecem. Algures, numa área de serviço da auto-estrada Lisboa - Porto, ele pára para descansar. Ela também lá está e parece tão à deriva quanto ele: é um encontro fortuito que talvez não tenha nada de fortuito. Quase sem palavras, partem os dois no carro dele. Sucedem-se as áreas de serviço, os motéis, as conversas e os silêncios, as revelações e os mistérios. Ele e ela desenham o mapa de uma aventura interior cujo destino ambos desconhecem. Em todo o caso, ela espera que ele a conduza a um lugar primordial, quase mítico: a casa da avó. Na sua solidão, cada um deles pode, pura e simplesmente, perder-se... ou, talvez, encontrar o outro.
A viagem de 98 Octanas faz-se de uma dupla geografia. Precorrendo o País através de sucessivas áreas de serviço, Dinis e Maria são náufragos de um tempo cuja violência conhecem demasiado bem, mesmo se não sabem que palavras dizer ou que gestos executar para resistir a todas as suas manifestações quotidianas. Utopicamente (mas eles já não sabem o que seja a utopia), seriam um par romântico entregue ao fascínio do seu próprio enigma. Na verdade, deslocam-se em direcção a esse ponto de fuga que é a avó de Maria como quem pergunta: será que temos uma história? Será que ainda podemos ter uma história?
  
O novo filme de Fernando Lopes, 98 Octanas é sem dúvida um filme que me deixou intrigado, pois tem momentos muito bons e momentos onde se sente que poderia estar mais completo e deveria estar mesmo mais completo. O filme é a história de Diniz e Maria, que vão viajando pelo Pais, ele a fugir de alguma coisa que não se entende muito bem o quê, só se sabe que ele jogou e ganhou mas que tem alguns criminosos atrás dele, e Maria está a procura de alguma coisa, que parece ser a sua avó.
Eu diria que este filme é um road movie, que não consegue explicar muito bem a natureza da relação das personagens, pois no início tudo começa muito rápido, deixando-nos perdidos, com vontade de sair da sala, mas não saia, pois o que se segue é bastante interessante. As interpretações de Rogério Samora e de Carla Chambel, estão muito boas, em especial Rogério Samora, que nos transmite um homem um pouco vazio e cansado da vida que levava, mas que largou sem olhar para trás, sendo que até a ideia de olhar para trás o perturba e o entristece. Podemos ver isso com uns telefonemas que ele recebe de uma suposta esposa, até porque ele, Diniz, mantém a aliança no dedo, mas nem isso o demove de partir.
Maria no entanto, é a personagem mais perdida, não se percebendo o porquê da fuga dela. Eu gosto mais de a ver como uma pessoa que se precisa de encontrar indo ao encontro do seu passado, dai partir para um futuro que encontra pelo caminho com Diniz, sendo este o amor mais interessante dos ecrãs portugueses dos últimos tempos. Este é sem dúvida um filme cheio de potencial, mas que não arranca. O argumento dos filmes portugueses continuam a deixar algo a desejar, pois muitos dos diálogos são um pouco irrealistas, ou melhor, muito literários para um filme que tenta ser realidade, de forma a contar a história, mas longe do que deveria ser. Sendo esses os momentos que nos distraem da história engraçada que estamos a ver.
O melhor deste filme é sem dúvida a sua fotografia, que apesar de ser um pouco estática, não deixa de ter um tratamento muito mais bonito e romântico do que o normal. Muitas vezes quando eles estão a correr as estradas no seu descapotável, vemos um caminho que não está lá, ajudando de certa forma à magia desta viagem de descoberta, tanto das personagens como, deles próprios, Diniz e Maria. Ambos se completam, mas Diniz é quem mais duvida disso. Mas no fim rende-se e nós com ele, a este filme.
A natureza da avó de Maria é tão sureal que chega a ser verdadeira, todos temos avós mais estranhas que outras, pois por vezes parecem falar de coisas que nos são tão diferentes, que chegam a ser sureais, para nós.
O som, grande drama nacional, neste filme está muito bem.
O fim deste filme é o que deveria ser e fica para vocês descobrirem, pois “98 Octanas” é sem dúvida um filme que merece ser descoberto, apesar das suas falhas. Penso que deveremos começar a dar hipóteses ao cinema nacional e para isso, nada melhor que ir à sala de cinema e ver, mesmo que depois se critique, mas não vale dizer mal sem ver, por isso aconselho a ida ao cinema para ver este filme, que apesar de tudo não tenta ser mais do que aquilo que é.
Um filme sobre a fuga e a procura de nós mesmos.
Pedro dos Santos



|