BONECAS RUSSAS

 

 

Data de estreia:
Título original: Les Poupées Russes
Realização: Cédric Klapisch
Actores: Romain Duris, Kelly Reilly, Audrey Tautou
Argumento: Cédric Klapisch
Produção: Bruno LEVY
Género: Comédia Romantica
Duração: 125 min.
País: FRA/GB

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Cinco anos depois das suas aventuras em Barcelona, Xavier (Romain Duris), o herói de “A Residência Espanhola”, vive agora em Paris e conseguiu realizar o seu sonho de infância: é escritor. No entanto, sente-se um pouco perdido, pois ganhar a vida como escritor não é assim tão fácil como ele poderia supor.
Para além disso, a sua busca pela mulher perfeita fá-lo saltar de namorada em namorada, numa série de relações inconsequentes. Vai mantendo também pequenos trabalhos para conseguir sobreviver, de jornalista a argumentista de televisão e a babysitter do filho da ex-namorada.  Com tanta coisa junta, Xavier tem dificuldade em concentrar-se. Mas uma viagem a Londres e a São Petersburgo vai permitir-lhe reconciliar o trabalho, a escrita e o amor.

 

Como nasceu o projecto de AS BONECAS RUSSAS ?
Depois da estreia de A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, disse que não queria fazer a continuação. Demorei algum tempo a perceber que poderia ser uma boa ideia! Inicialmente, foi um desejo de voltar a trabalhar com os actores. Tinha vontade de voltar a trabalhar com Romain Duris, Audrey Tautou, Cécile de France, Kelly Reilly e Kevin Bishop! E depois também tinha vontade de voltar a sentir o mesmo prazer que tive ao fazer A RESIDÊNCIA ESPANHOLA, um prazer que não tinha conhecido até aí. Queria também reencontrar um estilo que me permitisse ser livre na forma de contar uma história. Ou seja, o lado caótico de Xavier e o facto de poder contar uma história na desordem, com a voz-off de Xavier a dizer “Lembro-me disto... ou , não, não foi bem isso...”. E seis meses depois da estreia de “A Residência Espanhola”, quando me decidi a fazer a continuação, apercebi-me que ainda havia coisas que podia aprofundar. E assim valia a pena.

 

E como é que surgiu a ideia da história?
A ideia apareceu durante a promoção de “A Residência Espanhola” em São Petersburgo. Era a terceira vez que lá ia e estava apaixonado pela cidade. E, por isso, falei com Bruno Levy e chegámos à conclusão que existindo uma continuação ela tinha de acontecer ali. E depois houve algo que vimos lá que resolvemos aproveitar e que marcou o filme. Vimos uma noiva à espera do noivo que estava na casa-de-banho. E por isso pensámos que seria divertido se o William se casasse na Rússia. E assim, as ideias foram-se encadeando. Acrescentei ainda ao factor da idade: Xavier agora tem 30 anos e anda à procura da mulher da sua vida e tem problemas com o trabalho.

 

Quando falou do projecto aos actores não sabia como é que eles iriam reagir...
Pois não. E estava convencido que me iam todos dizer que não. Pensava que não teriam vontade de voltar a uma personagem que já tinham interpretado.

E achava que seria complicado para o Romain, depois de todo o sucesso que tinha tido “A Residência Espanhola”. Foi por isso que quis que víssemos juntos os filmes de Truffaut com Antoine Doinel. Queria que ele visse um actor interpretar a mesma personagem em diferentes épocas e que se apercebesse do que isso implicava. E por isso, depois de ter visto os filmes de Truffaut, ele foi o primeiro a dizer-me sim.
Quanto a Cécile, não sabia se ela tinha vontade de voltar a interpretar a Isabelle. Ela já tinha interpretado uma homossexual e pensei que não devia estar com vontade de voltar a fazê-lo. Mas não foi nada disso que aconteceu. Assim que lhe falei no projecto, aceitou logo, mesmo sem ler o guião. E também não estava com muitas expectativas relativamente a Audrey, porque quando ela fez “A Residência Espanhola” ainda não era conhecida como ficou com “Amélie”. E também ela aceitou sem hesitar.
Da Kelly, já não tinha notícias há imenso tempo. Ela estava com trabalho em Inglaterra e de início houve umas falhas na comunicação. Mas depois quando lhe falei de Wendy e da forma como ela tinha evoluído, Kelly não pensou duas vezes.
Mas quis ter a certeza que todos aceitavam antes de começar mesmo a escrever. Se algum deles tivesse dito que não talvez tivesse abandonado a ideia. Como todos estavam com tanta vontade, isso ainda me entusiasmou mais a escrever.

 

“A Residência Espanhola” era um filme sobre a pós-adolescência de todos os jovens que descobriam a vida através do programa Erasmus em Barcelona. Em AS BONECAS RUSSAS, eles tornaram-se um pouco mais responsáveis... Que assuntos quis abordar no filme?
São jovens adultos que têm entre 26 e 30 anos. Estão também ainda a descobrir a vida, mas agora na etapa seguinte.
Na fase entre ganhar dinheiro, ter uma vida profissional e, é claro, encontrar a pessoa ideal para viver...
Mas é sobretudo um filme sobre o amor.

 

Poderíamos dizer o mesmo sobre o casal...
Sim, sobre o casal e as relações do amor e do casal. Mostra muito bem a que ponto um casal não é forçosamente o amor e o amor não é forçosamente um casal. Quis mostrar as dificuldades de tudo isto.

 

Tal como em “A Residência Espanhola”, a história centra-se à volta da personagem de Xavier. Ele continua com uma vida caótica apesar de ter começado a viver do que escreve...
Houve muitas coisas que marcaram as pessoas em “A Residência Espanhola”. Primeiro, o facto de abordar o tema da Europa através do Erasmus. Mas sobretudo por falar daquele momento importante na vida, o final dos estudos, em que pensamos que lá por termos estudado um determinado assunto não quer dizer que a nossa vida a seguir tenha de ficar por ali. Há uma espécie de salvação no acto de realizar um sonho. Em “A Residência Espanhola” queria tornar esse sonho positivo. Queria dizer aos jovens que vivessem os seus sonhos e realizassem os seus desejos. E aí pensei que talvez tivesse de dizer o contrário em AS BONECAS RUSSAS. De facto, há duas atitudes na vida: sonhar e parar de sonhar. Tornar-se adulto é também deixar de sonhar. No entanto, é importante não abandonar o sonho por completo porque se não ficamos velhos antes da idade. Mas ao mesmo tempo não podemos viver num mundo impossível. Xavier sonha tornar-se escritor, mas isso não é forçosamente fácil, nem forçosamente feliz, sempre. Tentei tratar este tema, sendo o mais sincero possível.

 

Xavier está a escrever um telefilme cor-de-rosa. São lembranças pessoais?
Não! Quando comecei a trabalhar como realizador fiz sobretudo filmes para empresas. Foi isso que inspirou um pouco “Rien du tout”, a minha primeira longa-metragem. Às vezes era bastante indigesto e difícil de escrever, porque não era o meu universo... Mas permitia-me ganhar dinheiro. No filme, o que me interessava, era contar a história de um homem cujo trabalho é escrever histórias de amor, mas que ele próprio não consegue ter uma. Podemos escrever bem histórias de amor e não saber vivê-las, ou o contrário...

O filme fala também da dificuldade de viver o amor à nossa maneira num mundo que está formatado com imagens e determinadas histórias de amor.

 

Xavier está sempre numa autêntica desordem sentimental. Tem imensa dificuldade em estabilizar...
Sim, mas cresce. No filme, o objectivo era falar de amor, mas fazê-lo de forma contemporânea. Porque há mentiras consentidas hoje em dia. Poucas pessoas admitem que saíram com várias outras antes. Mas viver várias histórias de amor torno-se algo normal. Hoje já ninguém é “o homem ou a mulher da minha vida”.
A ideia do amor único não é o mesmo que existia na altura da literatura romântica. E ao mesmo tempo é difícil ser-se romântico e aceitar o facto de terem existido outras histórias de amor nas nossas vidas. “Como é que nos podemos apaixonar várias vezes na vida?”. Esta questão parecia-me importante. Por isso, a desordem de Xavier é a de todas as pessoas que andam à procura da pessoa certa. Muito poucos a encontram à primeira.
O filme de Truffaut que mais me inspirou foi “O Homem que Gostava das Mulheres”. Ele conseguiu mostrar realmente nesse filme um homem que passa de mulher a mulher sem ser nem macho, nem Don Juan, pelo menos numa perspectiva de conquista. Mas Xavier ainda é algo diferente de “o Homem que Gostava das Mulheres”.

 

Ou seja...
Truffaut mostra uma espécie de patologia no homem que ama as mulheres, mas em Xavier nota-se que se trata de uma situação que é contemporânea. Que acontece tanto nos homo como nos heterossexuais. A personagem de Isabelle mostra bem isso.
Há uma busca que pode ser muito sincera através de vários parceiros. Não é só aventuras. Quando Xavier está sozinho ou tem várias companheiras isso não o orgulha, isso não é genial... esta desordem é um ponto de partida e ele não tem vontade de ficar assim...


A amizade tem um papel quase mais importante que o amor nas relações entre os trintões. Acha que isso é algo próprio desta geração?
Sem dúvida. Os jovens de hoje conseguem coisas que a minha geração, a de 70, tentava e não conseguia. No que diz respeito à amizade vivemos uma época mais colectiva. Conseguimos viver a nossa vida enquanto indivíduos num mundo individualista, mas mesmo assim tendo pessoas à volta e existindo solidariedade. Ou seja, o individualismo e o colectivismo conseguem viver juntos. Acho que os estudantes hoje vivem de forma mais colectiva do que nos anos 80, quando eu era estudante.

 

Ao ver o filme nota-se que houve um enorme prazer em trabalharem de novo todos juntos. Como foi o encontro?
Adoro sagas. Adoro filmes com o “Era uma vez na América”. Existiu o mesmo prazer que tive quando fiz “Un Éléphant ça trompe énormément” ao reencontrar os mesmo actores. Reencontrar velhos amigos é óptimo. Lembro-me do hall do hotel em São Petersburgo no primeiro dia, quando nos voltámos a juntar todos outra vez. A última vez que tínhamos estado todos juntos foi na antestreia de “A Residência Espanhola” em Paris. Foi incrível voltar a encontrá-los.

 

Quase todos os actores de “A Residência Espanhola” se tornaram estrelas... Sentiu que existiram evoluções na forma como interpretavam os seus papéis?
Nem Romain, nem Cécile, nem Kelly, nem Audrey, eram estrelas na altura em que fizemos “A Residência Espanhola”. Houve um estatuto que mudou enquanto actores, mas eles mudaram também como pessoas. Têm uma maior maturidade na interpretação. Trabalharam com outros realizadores, fizeram grandes filmes... Têm uma aura diferente. Audrey não é a mesma pessoa nem a mesma actriz... E, no início da “Residência”, Cécile tinha dificuldades ao interpretar a personagem de Isabelle, e agora dominava-a por completo. Raramente vi actores assim tão bons!

Quando somos realizadores e trabalhamos  com actores assim temos a impressão de estar a conduzir um fórmula 1. É impressionante!

 

Conhecia bem Romain Duris para o ter escolhido para “Le Péril Jeune” e feito vários filmes com ele. Ele ainda o surpreende?
O que é engraçado é que me surpreende cada vez mais. Acho-o ainda mais impressionante do que em “Le Péril Jeune”. Na altura, ele não era actor, apenas um jovem que tinha uma graça natural. Filmá-lo era suficiente, era profundamente cinegético. Eu e Bruno Levy descobrimos alguém que tinha isto no sangue sem saber. Em “Chacun cherche son chat”, pensei “Olha, afinal também é um bom actor”, em “Peut-être” já pensava “Ele é mesmo muito bom”. Quando fez “A Residência Espanhola”, que era muito diferente do que tinha feito até então, vi que ele se tinha tornado um óptimo actor com qualidades profissionais que ultrapassavam as minhas expectativas. AS BONECAS RUSSAS é mais uma etapa. Depois de ter trabalhado com Jacques Audiard e ter feito “Arsène Lupin”, ele ficou monumental, um verdadeiro profissional. E o que é genial e soberbamente perturbador em Romain é que o seu profissionalismo não mata a sua espontaneidade inicial.
E entre nós dois há uma tal cumplicidade que ele sabe o que eu quero mesmo antes de eu ter terminado as frases.

 

A música é outro elemento muito importante no filme. Sempre trabalhou com Loïk Dury...
Há muito tempo que compreendi que a música era paralela à montagem do filme. Ela dá emoções, ritmo... Com Loïk Dury, ex-DJ que tem uma cultura musical vasta e que compõe desde que fizemos “Peut-être” tento ir sempre mais longe na tentativa de uma música ser antes de mais uma sensação e desenvolver um sentimento. As pessoas sentem muito isso... Não há nada mais forte que a música para veicular emoções porque elas não são conceptuais. Estudei filosofia e demorei algum tempo a perceber que era preciso esquecer tudo o que tinha aprendido quando comecei a estudar cinema. Há um momento em que já não falamos do intelecto mas dos sentimentos.

E a música é mais forte para dizer algo às pessoas porque não o faz de uma forma intelectual. É preciso pôr as emoções antes das ideias.

 

Porque escolheu o título AS BONECAS RUSSAS?
Era o título perfeito! Queria que tivesse alguma ligação com “A Residência Espanhola” e também que fizesse referência a um país. Xavier no início diz que escrever é arrumar a desordem da vida. Quando escrevemos, precisamos de caixas para arrumar as nossas ideias. Enquanto escritor, Xavier procura essas caixas e ao mesmo tempo a mulher da sua vida. Metemos caixas dentro de outras caixas para arrumar sentimentos complexos. E, no filme, as mulheres que ele encontra são como bonecas russas. E deve haver uma pequenininha encaixada no fundo de todas as outras que é a que ele procura.

Todos actores estão de acordo em fazer um terceiro filme !
É bom saber isso à partida!

 

E você ?
Eu estou de acordo pelas mesmas razões. Porque não daqui a cinco ou dez anos fazer uma continuação e ver como o tempo passou para essas pessoas. Vou esperar que o tempo passe e depois penso nisso!